“ÚLTIMA PARADA 174”

Fábio Mascarenhas da Conceição

Gostamos muito de filmes, porém sempre nos abstemos quando julgamos que o conteúdo possa apenas criticar falhas policiais, ou seja, rejeitamos obras cinematográficas que consideramos tendenciosas e preconceituosas contra a categoria profissional que pertencemos.

Inesperadamente, como atividade complementar, fomos imbuídos de assistir e dissertar sobre o filme “Última parada 174” do diretor Bruno Barreto, logicamente sentimos instantaneamente grande insatisfação por tal tarefa.

Neste momento cabe um pertinente aparte, todo policial experiente sabe jamais deverá criticar ou comentar ocorrências policiais que não tenha participado, principalmente nas denominadas “crises” envolvendo reféns, justamente pelo fato que a dinâmica dos acontecimentos sempre exigem decisões rápidas e, obviamente, existem enormes chances de erros, afinal policiais são humanos e suscetíveis às falhas, nestes casos a diferença entre ser herói ou “policial despreparado” é extremamente tênue.

Por se tratar de atividade acadêmica[1], realizada no interior da Universidade, não caberia qualquer possibilidade para esquivos, assim pegamos material de anotação e direcionamos nossa atenção à tela de projeção.

O filme iniciou narrando a origem de Sandro, personagem principal na tragédia do ônibus 174, cuja mãe foi vítima de roubo seguido de morte no humilde comércio (bar) que possuía na comunidade carente onde morava, fato que acabou o levando para viver nas ruas.

Seria apenas mais um entre inúmeras crianças vivendo expostas ao abandono, porém o destino lhe reservou lugar como vítima no crime que ficou conhecido como “Massacre da Candelária”, onde não perdeu sua vida unicamente pela perspicácia de se fingir de morto.

A história prossegue mostrando sua internação como menor infrator, momento que conheceu Marisa, mulher obstinada que procurava um filho com nome “homônimo”[2], acabou aceitando viver no lugar do menino desaparecido, mesmo sabendo que este provavelmente seria seu amigo.

Em determinado momento ele procura a responsável pela ONG que sempre lhe ajudou, seu objetivo era conseguir auxilio para gravar um disco no estilo musical RAP e se descontrolou quando a resposta não era a esperada.

Depois disto, procurou por Soninha, mulher que amava, porém a encontra com seu amigo Alessandro e novamente se descontrola, mesmo sabendo que ela sempre se prostituiu, inicia, então, uma série de delitos, muito reprováveis por sinal, como o roubo extremamente agressivo contra uma prostituta, acabou amargando um revés violento por seus atos.

Por fim, retorna à casa de sua pretensa mãe que vendo seu estado não lhe apoiou, era apenas uma reprovação como ensinamento normal e esperado, mas foi determinante para o jovem perturbado, após isto roubou os donativos dos fiéis de uma igreja protestante e consumiu grande quantidade de entorpecente.

Estes e outros fatos o levaram a entrar no malfadado ônibus da linha 174, seu objetivo não era a prática de crimes, mas a exposição indevida da arma que portava acabou resultando na tentativa de abordagem pela Polícia Militar, gerando a tão conhecida situação com reféns.

A narrativa cinematográfica destes fatos que desconhecíamos sobre a vida de Sandro nos lançou ao passado, sentimos novamente a sensação que tivemos anos atrás quando lemos o livro “As misérias do Processo Penal” de Francesco Carnelutti, durante nossa graduação de direito.

O caso do ônibus 174 encaixa-se perfeitamente no dilema levantado na obra citada, quando analisamos crimes nunca consideramos os fatos pretéritos e futuros relacionados aos criminosos, logicamente que situações vividas jamais justificarão a prática de delitos, principalmente os violentos, porém servem como base para entendermos as circunstâncias ou motivações.

Restou óbvio que Sandro seguia por caminho destrutivo e buscava ajuda nas pessoas que procurou, embora não soubesse conscientemente disto e, provavelmente, nenhuma delas pudesse ajudar, principalmente porque demonstrava sinais de baixa tolerância à frustração[3].

A surpresa ficou no campo da operação policial que esperávamos ver criticada e achincalhada no filme, principalmente na questão da condução e morte do Sandro por asfixia, porém não houve qualquer apontamento neste sentido, aliás, no contexto geral, pouco tempo foi dedicado para os acontecimentos relacionados com o ônibus.

Em última análise, o filme serviu para demonstrar que também podemos ser tendenciosos ou preconceituosos em nossos julgamentos, mesmo em escolhas simples, como filmes que devemos assistir e, de fato, proporcionou valiosa lição de prudência para nossas avaliações.


[1] Consideramos que as atividades acadêmicas sempre devem ser executadas, independente da percepção do aluno sobre o tema abordado, afinal são propostas em contextos pedagógicos e constituem caminho para novos aprendizados.
[2] O nome do filho procurado por Marisa é Alessandro, porém Sandro era conhecido por “Alê”, situação que proporcionou o engano.
[3] Baixa tolerância à frustração é transtorno de personalidade que acomete pessoas que não aceitam insatisfações ou contrariedades, normalmente resultando em comportamentos descontrolados ou violentos.


Informações adicionais:
Trabalho apresentado em 11/12/2010 no curso de pós-graduação lato sensu em Políticas Públicas e Gestão em Segurança Pública da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Download do trabalho original

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